“Senti que o que eu queria fazer era entender abstratamente, conceptualmente, o que a arquitetura poderia ser.” —  Peter Eisenman

Peter Eisenman, uma das personalidades mais enigmáticas do campo da architetura, combinou teoria e prática ao longo da sua carreira profissional, resultando numa série de projetos extremadamente influentes, como o Memorial o Holocausto em Berlim.

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Nascido no seio de uma família bem estabelecida, de judeus não-praticantes, Peter enquanto criança só toma consciência da sua origem quando as convulsões da entrada dos Estados Unidos na guerra avivam as chamas do antissemitismo. Provenientes os dois lados da família dos dois extremos ocidentais e orientais da Alemanha, país que durante o primeiro terço do século XX detém uma indiscutível liderança científica, o pai é químico orgânico e influencia o jovem Peter a formar-se como químico na Universidade de Cornell, mas terminado o primeiro ano neste curso, a paixão pelo desenho e os conselhos de um tutor levá-lo-iam à arquitetura, um curso que continuará mais tarde na Universidade de Columbia, e cujas exigências de tempo e dedicação serão incompatíveis com a natação que desde os sete anos pratica com o rigor de um futuro desportista de elite. Em 1960 muda-se para a Europa com uma bolsa Fulbright, concorre ao primeiro concurso e integra a Universidade de Cambridge como professor, defendendo ali a sua tese de doutoramento três anos mais tarde, sob a orientação de Leslie Martin e com “As bases formais da arquitetura moderna” como tema. É também nesta etapa que conhece o primeiro dos seus grandes mentores, o crítico Colin Rowe, que no decorrer das duas extensas viagens de verão por Itália desperta no norte-americano o fascínio pela arquitetura renascentista e barroca.

O LABORATÓRIO DAS CASAS
De regresso aos Estados Unidos, Eisenman funda o CASE, um grupo de debate sobre a arquitetura contemporânea — formado à semelhança do Team X — que, com o apoio de diversas instituições, desde a Graham Foundation ao MoMA, está na origem dos New York Five: cinco arquitetos (Michael Graves, Charles Gwathmey, John Hejduk, Richard Meier e o próprio Eisenman) influenciados então pela linguajem branca das vilas de Le Corbusier, e cujo racionalismo diagramático se tornaria muito popular, em confronto com o realismo pós-moderno dos chamados ‘cinzentos’. As primeiras obras de Eisenman, todas elas habitações, evidenciam a sua familiaridade com o primeiro Le Corbusier, mas também com o Terragni que tinha descoberto em Como pela mão de Rowe: umas casas construídas como se fossem maquetes de papelão — e daí vem o termo ‘cardboard architecture’ —, em busca de uma abstração extrema que prefigura os interesses teóricos que acompanharão toda a carreira do arquiteto, e que alcançam a sua manifestação mais programática na não construída Casa X de 1975. Por essa época, inicia a sua amizade com outro significativo mentor, o historiador italiano Manfredo Tafuri, que o persuade em relação à importância de construir para que as suas ideias conquistem respeito na profissão.

TOPOGRAFIAS EUROPEIAS
Eisenman é também impulsionador do Institute for Architecture and Urban Studies, assim como da revista Oppositions, que durante os anos 70 se transformam no veículo de comunicação intelectual entre a vanguarda da Costa Este norte-americana e a europeia, que naquele momento tem em Itália o seu núcleo mais dinâmico. Os vínculos com o velho continente incentivam-no a participar em diferentes concursos aí convocados, e são objeto da sua atenção projetos de tamanha importância como o de Cannaregio em Veneza ou o ‘Romeo and Juliet’ de Verona, onde explora a ideia da ‘escavação artificial’, que põe em tensão ou contraste a abstração formal da sua linguagem arquitetónica com a específica da topografia e das marcas urbanas. Pela ponte teórica e artística criada entre Nova Iorque e Milão circulam nesses anos as ideias e as formas mais estimulantes e férteis e o diálogo entre textos e cidades que os projetos de Eisenman propõem é um dos frutos mais significativos deste momento da arquitetura, iluminado pelos livros de Aldo Rossi e Robert Venturi em 1966, mas em grande medida esgotado duas décadas depois com o aparecimento impetuoso das correntes desconstrutivistas. Já perto dos cinquenta anos, Eisenman é um arquiteto com poucas casas terminadas, mas nessa época encerram tanto o Instituto como a Oppositions, e o nova-iorquino decide seguir o conselho de Tafuri e entregar-se à construção.

DESCONSTRUÇÃO EM OHIO
O cenário das suas primeiras realizações importantes será o estado de Ohio, onde sucessivamente levanta o icónico Wexner Center em Columbus, um provocador collage de formas e intenções que suscitará um extraordinário interesse e uma agitada polémica, o colossal Aronoff Center em Cincinnati, cuja construção se estende ao longo de uma década e o Columbus Convention Center que, como os anteriores, é uma manifestação dos volumes desconjuntados da estética desconstrutivista. O inspirador desta revolução artística é o filósofo francês Jacques Derrida, que Eisenman conhece em 1986 e que durante a seguinte década será o seu terceiro grande mentor intelectual. No mesmo ano, Eisenman inicia uma análise que se prolongará ao longo de vinte anos e que realiza com dois psicanalistas diferentes e simultâneos, a cujas consultas vai semanalmente e que o ajudam a desviar a sua atenção da cabeça para o chão, o que, a seu ver, explica a passagem dos livros para os edifícios e da arquitetura desenhada para a construída. A influente exposição do MoMA em 1988, sobre arquitetura deconstrutivista, comissariada pelo seu protetor Philip Johnson e pelo professor Mark Wigley, tem em Eisenman um dos seus protagonistas, e os seus projetos fraturados adquirirão na década seguinte uma visibilidade simbólica que não é alheia à sua crescente qualidade escultórica.

ÍCONES ESCULTÓRICOS
Nos anos 90, o trabalho de Eisenman reparte-se por vários continentes, e as Any Conferences organizadas com a sua esposa, Cynthia Davidson, reunirão muitos dos mais eminentes arquitetos e críticos em diferentes cidades do planeta. Esta internacionalização do atelier pode ilustrar-se na Ásia com dois edifícios corporativos, a sede de Koizumi e a de Nunotani em Tóquio, na Europa, com o extraordinário projeto do arranha-céus Max Reinhardt Haus, que deveria ter sido levantado na mesma Berlim onde ele já havia construído as habitações de Checkpoint Charlie e na América, com o estádio dos Arizona Cardinals, em Glendale, um colossal recinto de 80000 lugares, com teto e campo retráteis que combina inovação técnica e audácia formal com a paixão desportiva do arquiteto. Todas estas obras são dotadas de vontade icónica, a sua gramática compositiva transita das fraturas sísmicas às torsões ou curvaturas das malhas que organizam os projetos, e, em muitos casos, com um uso libérrimo da cor, onde os tons pastel substituem a paleta branca, preta ou vermelha de raiz construtivista que tinha marcado o início dos seus desenhos e teoria.

EXERCÍCIOS DE MEMÓRIA
Os pedidos mais importantes da carreira de Peter Eisenman chegariam nos últimos compassos do século XX, e desenvolver-se‑iam em boa parte durante o século XXI. Em 1998 projetou, em conjunto com Richard Serra, o memorial berlinense aos seis milhões de judeus assassinados na Europa, um compromisso que o escultor abandonaria, deixando Eisenman sozinho perante uma obra cuja importância política e simbólica é difícil de abarcar e que culminou na sua conversão em monumento essencial da capital alemã e foi a realização mais comovente da sua trajetória; no ano seguinte ganha o concurso para a titânica Cidade da Cultura da Galiza, localizada numa colina nos arredores do centro histórico de Santiago de Compostela, que o arquiteto modelou, dispondo com sensibilidade topográfica um conjunto de edifícios cujo traçado evoca o do centro monumental da cidade, e que vinte anos depois continua por concluir. Para um nova-iorquino, o trauma do 11 de setembro é difícil de esquecer ou de curar, e talvez por isso seja apropriado dar por terminado provisoriamente este percurso pela sua obra com o seu singular projeto para o World Trade Center que expressa eloquentemente a vontade afirmativa da vida metropolitana na localização trágica do Ground Zero.

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Conversas com Peter Eisenman

Uma das personalidades mais enigmáticas no campo da arquitetura do nosso tempo. Peter Eisenman destaca pelos seus projetos e pelo seu importante percurso académico, além de ser reconhecido pelo seu ativismo cultural através de revistas, encontros e centros de reflexão. Após uma procura constante pela abstração geométrica, desenvolveu obras extremamente significativas, como o Memorial do Holocausto de Berlim, a Cidade da Cultura de Galiza e vários centros educativos de Ohio, além de uma série de projetos domésticos muito influentes.

Arquivo

Título original
Conversas com Peter Eisenman
Ano
2018
Duração
31’
País
Espanha
Diretor da coleção
Luís Fernandez-Galiano
Ideia, produção e edição
Fundación Arquia
Realização
White Horse
Direção criativa
Folch
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Uma das personalidades mais enigmáticas no campo da arquitetura do nosso tempo. Peter Eisenman destaca pelos seus projetos e pelo seu importante percurso académico, além de ser reconhecido pelo seu ativismo cultural através de revistas, encontros e centros de reflexão. Após uma procura constante pela abstração geométrica, desenvolveu obras extremamente significativas, como o Memorial do Holocausto de Berlim, a Cidade da Cultura de Galiza e vários centros educativos de Ohio, além de uma série de projetos domésticos muito influentes.

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<p class="mt0">Uma das personalidades mais enigmáticas no campo da arquitetura do nosso tempo. Peter Eisenman destaca pelos seus projetos e pelo seu importante percurso académico, além de ser reconhecido pelo seu ativismo cultural através de revistas, encontros e centros de reflexão. Após uma procura constante pela abstração geométrica, desenvolveu obras extremamente significativas, como o Memorial do Holocausto de Berlim, a Cidade da Cultura de Galiza e vários centros educativos de Ohio, além de uma série de projetos domésticos muito influentes.</p>
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